
A vida é engraçada, num dia você tem tudo no outro já não existe mais nada. Tudo com os seus dois lados, felicidade e tristeza, verdade e mentira, vida e morte. A vida nao foi feita para ser constante, tudo muda, tudo passa, tudo acaba. Destino, escolhas, erros ou acertos, cedo ou tarde tudo isso nos leva para o mesmo caminho, sem que possamos fugir do inevitável.
E se eu não tivesse saído de casa naquele dia, se eu não tivesse pegado aquele ônibus, se eu não tivesse dado o meu lugar para aquela velhinha. Tantos "ses" que não mudam nada. Eu lembro exatamente como começou aquele dia. Era uma 6ª feira ensolarada, iria ser o meu último dia no ensino médio, depois das férias a minha tão sonhada faculdade de direito me esperava. Levantei às 6:00 da manhã naquele dia, tomei banho e desci para o café. Minha querida mãezinha já me esperava com a mesa pronta. Era somente eu e ela, sempre foi assim. Se eu soubesse que não iria voltar para a casa no fim daquele dia eu teria lhe dado uma abraço apertado, um beijo demorado e teria lhe agradecido por lutar tanto por mim.
Depois do café peguei o ônibus em direção a minha escola, não estava tão cheio e foi fácil conseguir um lugar ao lado da janela, em seguida levantei para dar lugar a uma senhora. E foi a partir deste momento que tudo mudou. Ouvi o barulho do disparo, a bala estilhaçando o vidro do ônibus e depois só vi o escuro.
Agora já faz quase 5 meses que estou deitada nesta cama de hospital sem poder me mexer, vendo minha mãe chorar todos os dias, pedindo para que eu fale com ela, pedindo para que eu acorde. Tento falar, tento me mexer, mas não consigo nada, nem um som, nem um movimento. Só consigo sentir angústia, medo e desespero.
As noites são tão solitárias, é o momento em que minha mãe volta pra casa e me deixa lá, não que ela tivesse escolha. Eu só queria levantar daquela cama e dizer pra ela que tudo iria ficar bem. A enfermeira vem de hora em hora checar os aparelhos, olha e sai com uma expressão vazia, uma expressão que não diz nada. Nem melhora, nem piora. Coma profundo, foi o que ouvi o médico dizer para minha mãe. Presa no meu próprio corpo, vendo os dias passarem sem que eu possa vive-los. Viva e ao mesmo tempo morta.
Minha mãe me visita todos os dias. Me dá um beijo na testa, alisa meu rosto, deita a cabeça no meu peito e permanece assim. Sinto minha camisola molhada pela suas lágrimas, e logo seu choro quieto se transforma em soluços de sofrimento. Ahhh minha mãezinha! Como eu queria enxugar suas lágrimas, como eu queria te abraçar forte. Será que nunca mais poderei fazer isso?
Depois do choro e de suas preces para que Deus me tire dessa, ela puxa uma cadeira e se senta ao meu lado. Nos últimos meses ela me contava sobre o seu dia quando não estava comigo, falava do seu emprego, falava da Balula, minha cadelinha. Dizia que Balula estava sentindo minha falta, e que todas as manhãs ia ao meu quarto me procurar.
Ultimamente ela me fala sobre uma decisão difícil que ela tem que tomar. O médico acredita que não tenho chances de me recuperar, diz que é como se eu estivesse morta e que a melhor solução seria que eu pudesse partir para enfim descansar em paz. Ela diz que nos primeiros dois meses tinha esperanças de que eu me recuperasse, mas agora ela acha que o médico pode ter razão, que ela está sendo egoísta em querer me manter deste jeito, diz que não sabe se eu estou sentindo dor ou não, mas não quer mais me ver deitada numa cama dependendo de aparelhos para viver. Eu choro, se saem lágrimas ou não eu não sei, mas a tristeza me invade. Não quero morrer, mas também não quero continuar deste jeito. Por que Deus não me salva e me tira deste sofrimento? Por que eu?
Depois de algumas horas minha mãe se despede e diz que amanha tudo vai ficar bem, que Deus vai me amparar e me livrar deste sofrimento, diz que vai ser difícil me deixar ir embora para sempre, mas que um dia iremos nos encontrar de novo. Me dá um beijo no rosto, me abraça forte, diz que me ama e se vai. Logo depois a enfermeira entra na sala, me aplica o remédio e eu adormeço.
Acordo na manhã seguinte com um aperto no peito, logo vem a lembrança de que hoje tudo termina. Talvez seja melhor assim, minha mãe vai poder continuar a vida dela e eu vou me livrar deste sofrimento. O médico entra na sala, será que vai ser agora? Checa os aparelhos, pergunta se estou lhe ouvindo. Sim eu estou te ouvindo, você que não me ouve. Minha mãe entra na sala, cumprimenta o médico com uma voz tão fraca que dá até pra sentir sua tristeza. O médico diz que vai nos deixar a sós e sai da sala. Minha mãe se aproxima pega na minha mãe e começa a falar. Pede perdão por não poder me ajudar, diz que só quer o meu bem, que não tem mais escolha. Depois de algum tempo o médico volta pro meu quarto e diz para minha mãe que chegou a hora. Como eu queria poder abraça-la pela última vez, me despedir dos meus amigos e da Balula, terminar de ler o livro que ficou em cima do criado mudo, ou ver aquele filme que vai estrear no cinema. Tantas coisas eu queria fazer pela última vez, tantas coisas que eu queria fazer pela primeira vez. Mas não adianta lamentar hoje o que você não fez ontem, porque ontem você fez o que tinha vontade de fazer. Hoje você agiu errado, mas hoje não é ontem. Ontem foi um dia, hoje é outro e amanhã você se lamentará em vão pelo o que fez ou deixou de fazer hoje. O ar me falta, sinto minha mãe apertando forte minha mão e ouço seu sussurro. _ Vai com Deus minha filha. Foi o que ela disse. Fica com Deus minha mãe.
A vida passa e o mundo vai girando cada vez mais veloz. A gente espera do mundo e o mundo espera de nós. Será que é tempo que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara. Tão rara.
Nenhum comentário:
Postar um comentário